domingo, 4 de julho de 2010

As vidas de um livro (Primeiro post)

Queridos amigos,

Esse conto é dedicado a pessoa que tirei no amigo secreto, só que nele estão incluídos os nomes de quase todos os autores s/a. Nele, somos os personagens (com ou sem dados que remetem à realidade). A pessoa que eu tirei... Hum... Ela é uma das personagens. Ela pode aparecer no começo, no meio ou no final dessa história. Quanto a isso, vocês é que terão que adivinhar, rs.

Obs: o conto será publicado em dois posts. Este é o primeiro. O segundo está quase finalizado. Será, literalmente, um grande presente! (rs).

Bom divertimento a todos,

Lohan Lage.



CAPÍTULO 1

"PESSOA ENCONTRADO"

“Querida Bia,



Se um dia este livro repousar em tuas mãos,


Saiba que meu amor por ti será eterno,


Se me for permitida a eternidade,


Pois a morte que de mim se aproxima


Através de horas, horas frias, sem rimas,


Não será capaz de abater o que sempre senti por você.


Peço o teu perdão. Já que nunca pôde me dar seu amor,


Peço apenas o seu perdão.


Apenas assim terei paz. Paz para sempre.


Te amo,


João”.



Uma dedicatória, na primeira página amarelada das Odes de Ricardo Reis. A letra bem legível, de contornos elegantes, e mais que isso – o conteúdo daquele texto, e a aura que dele emanava – fez o coração do estudante de Enfermagem Lohan reverberar uma luz antes oculta dentro do peito.

Sentiu o livro pesar nas mãos. Havia nele uma imensa carga emotiva, havia uma vida quase tangível alojada dentre aquelas páginas. Mas não o devolveu à estante daquele sebo. Folheou-o rapidamente, o espalmou duas vezes e, decidido, foi até a bancada de atendimento. Lá estava presente a dona daquele sebo do Centro da cidade do Rio de Janeiro, organizando uma pilha de livros da melhor idade.

-Bom dia, eu gostaria de pagar um livro...

A mulher, de súbito, já demonstrou grande simpatia. Cessou seu afazer e dirigiu-se até o leitor com um sorriso aberto.

-Olá, bom dia. Eu me chamo Tatiana. Primeira vez aqui? – Perguntou, radiante.

-Sim, sim... Preciso de uns livros sobre lâminas basais e afins, não encontro em lugar algum.

Lohan sorriu, consciente de que acabara de falar sobre um assunto que mais parecia uma incógnita egípcia.

-Wells, deixa eu mentalizar essas palavras, lâminas basais... Hum... Nenhum resultado para sua pesquisa, sorry, meu hd mental desconhece isso.

Ambos deram gargalhadas.

-Nós temos lâminas basais, se quer saber.

-As únicas lâminas que tenho são das minhas facas Tramontina, meu querido, o resto... I’m outside. -Ora, esqueça, tudo bem. Eu não encontrei, então...

-Prometo que vou me inteirar desse assunto, muito me interessou! E quanto a esse livro que está segurando?

-Ah – Sobressaltou-se – Esse livro... Esse livro me chamou a atenção, nem sei te explicar porquê. Odes de Ricardo Reis.

-Uau, é o livro que eu resgatei do meu ex-bofe! Nossa, quanto tempo eu não o via!

-Então você o doou?

-Sim, eu o trouxe para cá, tem uns três anos já. Ai, sabe quando a gente quer se livrar de tudo que cheira a passado? Só de olhar para uma foto desse ex-rock-bofe eu sentia um zunido nos meus ouvidos. Primeiro mês de namoro: ele me vem com um cd de um tal de Dio. Pôs no último volume, e eu já na terceira faixa pedindo pelo amor de Dio, arranhe esse cd com prego, dê para alguma criança brincar de disco voador, whatteva! Nobody desert it!

-É, mas pelo visto seu ex-namorado rockeiro gostava de poesia.

-Que nada, esse livro estava perdido no fundo de uma caixa de entulhos dele. Eu que o resgatei, trouxe pra minha casa, dei carinho, amor, um marcador e serventia.

-Minha nossa... Vou ficar com ele. Esse livro exala história. Tem até uma dedicatória incrível, já leu?

-Nossa, lembro vagamente. Não imagina quanto livro com dedicatória me aparece nesse sebo. Já li umas de fraturar o maxilar, tipo, “vê se agora saia do papai e mamãe, seu idiota”. Livro: Kama Sutra.

Risos.

-Mas então, pra quem procurava por lâminas basais!

-Fui parar na parte de poesias por um acaso mesmo. E esse livro... Foi algo tão espontâneo, tão vívido. Nunca me imaginei segurando um livro de Ricardo Reis. Logo eu, estudante de Enfermagem.

-Oh! Enfermagem, que máximo! Ricardo Reis é um dos homônimos de Fernando Pessoa. Gostei, apesar de preferir o Alberto Caeiro.

-Caeiro?

-Outro homônimo. Pessoa é várias pessoas numa pessoa só, sacou?

-É, mais ou menos... Quanto eu te pago?

-Não vou cobrá-lo. Fique de presente. Não é todo dia que um aprendiz de enfermeiro compra as Odes de Ricardo Reis. This fact deserts my recognize. It’s my present.

-Obrigado, Tatiana. Muito obrigado.

-De nada, querido. Volte sempre. Ah, da próxima vez, conversaremos about lâminas basais, combinado?

-Com certeza, terei prazer em explicar. Até a próxima.


“Sorte Hoje,


Destino sempre, e nesta ou nessa


Forma alheio e invencível”

(Ricardo Reis)

Assim leu em voz alta o jovem com o livro nas mãos, recostado na cabeceira de sua cama naquela noite. Os poemas de Ricardo Reis não lhe agradaram muito; talvez concordasse com Tatiana, ia procurar por Alberto Caeiro.

Mas não eram os poemas... Não era o autor que o mantinha conectado àquele livro. Volta e meia relia a dedicatória, da primeira página. “Querida Bia, se um dia este livro repousar em tuas mãos...” Deveras estava intrigado com aquilo. Sempre fora uma pessoa curiosa, a respeito de todas as coisas. E se aquela curiosidade se tornasse obstinação, talvez pagasse caro pelo seu instinto: faria de tudo para alcançar seu objetivo.

“A edição é de 1963... Relativamente antigo. A dedicatória não tem data...O estranho é que... Esse livro nunca deve ter parado nas mãos dessa Bia. Se o tivesse, ela não teria coragem de repassá-lo a outra pessoa... Ou teria?”.

Aquele pensamento martelava em sua cabeça...

“Para ela seria um objeto de valor imensurável. Eu não venderia, muito menos doaria tal livro, com tal dedicatória... Não, definitivamente, ela nunca recebeu esse livro em mãos”.

Naquele mesmo instante, Lohan sentiu-se demasiadamente responsável pela rota daqueles destinos. Deixou o livro cair sobre suas pernas. Estava pesado... Pesado demais.

Na manhã seguinte, encontrou Tatiana no sebo.

-Uau, pensei que minhas aulinhas sobre lâminas basais nunca iam acontecer! Não levei fé em tu, man!

-Você deveria ter acreditado. – Sorriu Lohan.

-Sério, você precisa de mais alguma coisa?

-Sim, eu... Eu preciso falar com o seu ex-rock-bofe.

-What?! – Perplexa.

-O seu ex-namorado. Sabe, quando a gente precisa se encontrar com as coisas que cheiram a passado? – Disse, sarcasticamente, fazendo um trocadilho com o que a dona do recinto lhe dissera no dia anterior - Pois é, eu me encontrei com esse livro, e esse livro está me levando a seguir adiante nesse rumo, através dos cheiros. Os odores do passado.

-Garoto, quem é você? Meo Deos, você é muito...

-Estranho, eu entendo. – Sorri, sem graça – Desculpe, Tatiana, mas eu preciso desvendar o mistério que ronda essa dedicatória.

-Que mistério pode envolver uma dedicatória?

-O mistério dos olhos que nunca a leram, e que deveriam ter lido.

-Nossa... Você vai ser enfermeiro mesmo?

-Isso não me impede de pensar, e arranhar umas palavras bonitas às vezes.

Sorriram.

-Wells, but... Você quer descobrir quem escreveu essa dedicatória?

-Sim. Acredito que a mulher a qual ele enviou essa dedicatória, nunca a recebeu.

-Mas o meu ex-bofe nem deve lembrar desse livro! Do jeito que ele é... Há essa hora deve estar ouvindo Marylin Manson, credo em cruz cinco vezes. – Disse, benzendo-se.

-Isso que vou tentar saber com ele. Se ele lembra como adquiriu esse livro, ou se não foi o próprio quem escreveu essa dedicatória. Vá saber.

-É, who knows. Vai que ele tenha escrito para uma sirigaita-rockeira... Ok, eu vou te dar o endereço dele. Telefone não vai adiantar, ele não se lembrará desse livro se não o ver com os próprios olhos. E oh: se um dia descobrir como tudo isso começou, eu quero ser a primeira a saber, hein!

-Claro, muito justo. Eu te agradeço por tudo.

-E eu admiro sua atitude. Go, man!



CAPÍTULO 2

"O HOMEM QUE ODEIA ODE"


Manhã seguinte. Uma casa em Duque de Caxias. Um homem sem camisa, com os cabelos desgrenhados e os olhos fundos de olheiras atende a porta.

-Bom dia, o senhor é o... – Lohan confere o nome no pedaço de papel – Alan Kardec?

-Endereço errado, camarada. Procure num centro espírita.

O homem já ia fechando a porta, a uma pachorra, quando Lohan interveio.

-Espere, só um minuto! A Tatiana me passou o seu endereço, disse que seu nome é Alan Kardec.

-Aquela danada... – Resmungou o homem, antes de abrir a porta totalmente – Entra, brow.

Lohan estranhou a mudança brusca de atitude do homem. Entretanto, não hesitou muito. Já no interior daquela casa, espantou-se com a bagunça. A clássica meia pendurada no ventilador de teto, cds e discos e livros e revistas e comida espalhados pelo chão da sala, no sofá, na mesa. E, claro: algumas garrafas de uísque...

-Adianta eu te pedir pra não reparar a desordem? Até um cego enxergaria... Senta aí, brow.

Lohan relutou por um instante. Só por um instante. Não podia, nem queria contrariar aquele esquisito homem. Sentou-se no sofá sujo.

O homem estava de costas para Lohan, enchendo um copo de uísque em sua bancada de bebidas.

-Aceita, brow?

-Não, obrigado.

Feito isso, Alan sentou-se no sofá defronte ao que Lohan estava, com o copo na mão.

-Pra começar, o meu nome é Camillo Landoni. Alan Kardec é coisa do passado, assim como a mulher que te enviou até a minha casa. E tu? Qual é o teu nome e o que quer?

-Eu me chamo Lohan.

-Francês?

-Acho que sim.

-Não sabe nem de onde surgiu teu nome?

-Prefiro não saber demais. Vai que eu descubra algo que me desagrade e resolva mudá-lo em cartório, para Camillo Landoni, por exemplo. Meu nome sou eu, e pronto.

-Ô... Gostei de você, brow. – E virou uma golada.

-Deixa sempre qualquer desconhecido entrar na sua casa sem se certificar antes?

O homem riu, quase engasgando com o uísque.

-Você acha que um homem nessas condições de vida, se é que se pode chamar isso de vida, se importa com alguma porra? – Disse, amargurado, apresentando a situação que a casa se encontrava para Lohan.

-A bebida não vai curar sua depressão.

-Vem cá, tu é meu terapeuta ou o que? Se eu quiser conselho, vou assistir a uma porra de reunião do AA, valeu? E quem te disse que eu to com depressão?! – Alterou-se.

-Está bem – Lohan preferiu deslocar-se de qualquer assunto que não lhe interessasse, e ir direto ao ponto, pois aquele homem lhe causava um certo temor. Retirou da pasta preta que trazia consigo o livro de Ricardo Reis, e rapidamente o estendeu para Camillo, que o pegou.

-Que porra é essa?

-Não vê que é um livro?

-Odes a Ricardo Reis... Fernando Pessoa... Não me diga que é presente da Tatiana? Um livro do sebo onde ela trabalha? – Disse, de certo modo, feliz.

-Não, não... – Sorriu Lohan – Na verdade, esse livro foi você quem deu a ela. Não se lembra?

Camillo analisava o livro, e fazia que não se lembrava.

-Eu? Eu comprando livro de odes? Eu odeio ode!

-Como você adquiriu o livro, é justamente o que eu preciso saber. Nele, há uma dedicatória. Leia, na primeira página.

Camillo abriu o livro, e pôs-se a ler. Lohan continuou:

-Preciso saber de quem veio essa dedicatória, e a quem foi destinada. Por isso vim aqui, te consultar, afinal, o livro veio de você, segundo a Tatiana. Ela disse ter encontrado no fundo de uma caixa de entulhos, na sua casa. Bem se vê que você realmente odeia ode.

-Sim, sim... – Disse, vagamente, enquanto lia a dedicatória – Bem, comprar eu tenho certeza que não comprei. Nem roubei, claro...

-Sendo assim...

-Só pode ser da minha irmã, aquela matusquela do caralho. Toma isso.

Camillo devolveu o livro a Lohan.

-Da sua irmã? Como assim?

-Na época que ela morava aqui em casa, devia ter o que... Uns dezessete anos, é, dezessete. Ela tinha as tralhas dela, de escola e tudo mais. Provavelmente esse livro é dela, e a dedicatória comprova isso, camarada.

-Como assim, comprova?

-Acho que você acaba de descobrir a destinatária. O nome da minha irmã é Bianca, mas todos a chamam de Bia. Minha vista ta meio embaçada ainda, tu me acordou cedo pra caralho (eram onze da manhã), mas mesmo assim, eu li aí: querida Bia...

-Bingo! Nossa, descobri mais cedo do que eu imaginava! – Alegrou-se Lohan – Mas é estranho... Ela não deu importância ao livro, à dedicatória. Esqueceu no fundo de uma caixa...

-Ela é louca. Expulsei aquela porra da minha casa. Essa dedicatória aí deve ser de um otário qualquer. Só um otário pra ficar desse jeito por causa da Bia, e ainda dar um livro desses pra ela, haha. – Mais um gole.

-Por que a expulsou?

-Flagrei minha irmãzinha trepando com um cara, aqui, na minha casa. Daí ela foi morar na casa da tia, lá em Niterói.

-Você tem algum telefone dela que possa me dar, ou e-mail, qualquer contato?

-Não tenho porra nenhuma. Quero distância. Aconselho o mesmo pra tu.

-Mas é importante pra mim, Camillo. Tente se lembrar um modo que eu possa me encontrar com ela, e entregar esse livro para ela. Agora que eu comecei com isso... Vou até o fim.

-Eu acho que tenho guardado aí um cartão, da minha tia. Ela é sexóloga, tem consultório em Niterói. A Bia mora com ela.

-Ótimo. Será de grande ajuda.

-Eu vou te dar esse cartão, mas quero que tu me faça um favor, em troca.

Lohan hesitou, e disse:

-Sim, claro, pode dizer...

-Já que tu conhece a Tatiana, avisa pra ela que eu preciso vê-la, preciso muito, muito encontrá-la. É questão de vida ou morte, camarada.

-Entendo... Ainda gosta dela, não?

Camillo inclinou a cabeça, triste. Em seguida, levantou-se do sofá, meio cambaleante.

-Vou pegar esse cartão de uma vez e tu dá o fora da minha casa.



CAPÍTULO 3

"BIA"


-Por favor, eu gostaria de falar com a Dra. Carla Zeglio.

-Consulta, senhor?

-Não, é particular. É muito importante. Eu perdi o telefone celular dela, então...

-Aguarde um minuto, vou transferir a ligação.

Trinta segundos depois.

-Alô?

-Boa tarde. Dra. Carla?

-Pois não. Quem fala?

-Eu me chamo Lohan. Sou um amigo antigo da Bianca, sua sobrinha, e fiquei sabendo hoje que ela foi morar com a senhora.

-Por favor, explique-se direito... Amigo antigo? De onde? Ela nunca comentou sobre nenhum Lohan comigo.

-Eu a conheci na escola, lá em Duque de Caxias. Depois ela se foi, e não tive mais notícias. Pra minha sorte, encontrei o tio dela, Camillo Landoni, que me deu o cartão do seu consultório.

-Sei... E o que você quer? O telefone dela?

-Sim, eu ficaria muito grato por isso.

-Meu filho, me desculpe, mas agora estou super ocupada, vou atender a um cliente. Poderia me ligar daqui a dez minutos?

-Mas é só o telefone da sua casa, Dra.

-Sim, mas... Ela não mora mais comigo, ela mora sozinha agora, e eu esqueci o número dela. Me desculpe, ligue depois, ok?

-Certo. Obrigado...

-De nada.

Lohan desligou o telefone, frustrado. “Ela vai entrar em contato com a Bia e confirmar se ela de fato me conhece... Agora danou-se tudo. Como as pessoas são desconfiadas hoje em dia.”

E foi exatamente o que aconteceu...

-Lohan? Nunca vi, nem ouvi falar nesse nome, tia. Coisa esquisita, não?

-Deve ser armação do seu irmão, só pode! Ele deve estar querendo investigar sua vida, saber se você está andando na linha, essas coisas.

-Ele que vá a merda, isso sim. Você fez bem em não dar informações minhas. Se ligar de novo, manda tomar no cu.

-Que isso, Bia! Também não é assim! Eu sou uma sexóloga conceituada, tenho uma proposta de educação sexual séria, e vou ficar mandando uma pessoa tomar no cu, assim, sem mais nem menos, sem preservativo, nada?

-Ah, tia, esquece! Agora deixa eu ir, to atrasada pra facul. Beijos estralados.

Bia desligou o celular, apanhou sua mochila e se foi.

Lohan nem sequer ligou novamente. Sua obstinação pulsava cada vez mais forte, e a cada vez que olhava para aquele livro, sentia uma fisgada de responsabilidade no peito.

Na manhã seguinte, tomava a barca. Estava de partida para Niterói.

Sentou-se ao lado de um rapaz, aparentemente descontraído, que lia a página de esportes de um jornal.

-Brincadeira, não? Esse técnico do Vasco renovou o contrato! Desse jeito vamos cair de novo – Resmungou o jovem, que vestia uma camisa do Vasco.

-Desculpe, você falou comigo? – Sobressaltou-se Lohan, que antes admirava o horizonte marítimo da Baía.

-Não, foi mal. Eu sou daqueles que falam sozinho. Falo as coisas que me incomodam, pra ver se o vento as levam até os ouvidos de quem merecem ouvi-las!

-Sei como é isso... É como xingar o juiz, mas, coitado... Ele não merece ouvir um bando de marmanjo fanático xingar a mãe dele.

Riram.

-É uma das graças do futebol, fazer o que? O juiz tem que ter consciência disso antes de estudar para apitar. Se eu ganhasse a grana que esses juizes e jogadores ganham, minha mãe não se importaria nem um pouco em ser chamada de puta. Eu a compensaria com um ap em Copacabana com vista pro mar e um carro zero no estacionamento.

-É, até que você está certo... Como se chama, vascaíno?

-Renner.

Apertaram as mãos.

-Eu sou Lohan. Ah, sou flamenguista.

Renner rapidamente recuou a mão, limpando-a em sua camisa.

-É contagioso.

O papo animado estendeu-se até a chegada da barca, em Niterói.

-E então, o que te traz à famosa Nikiti? – Perguntou Lohan, já na rampa de saída.

-Eu? Eu... – Renner vacilou – Eu vim visitar um amigo, que está doente, coitado. É tricolor, mas merece meu apoio nessas horas, né... E você, cara?

-Eu vim à procura de uma pessoa. Preciso entregar algo a ela. Algo que está nessa pasta aqui.

-É uma coisa de muito valor?

-Sim. Você não imagina o valor do que está dentro dessa pasta.

Renner teve sua curiosidade despertada, mas conteve-se. Não queria parecer inconveniente. Já na rua, ambos despediram-se.

-Foi bom te conhecer, apesar do seu time. – Gozou Lohan.

-É, digo o mesmo. Boa sorte na sua entrega... – Disse, com os olhos fitos na pasta.

-Ah, obrigado... E boa sorte com seu amigo. Até quem sabe um dia.

Renner tomou seu rumo. Lohan foi à procura de um guarda para que pudesse ser informado a respeito do endereço que constava naquele cartão. Um guarda lhe passou as coordenadas pacientemente. A rua era próxima, para sua sorte.

Em vinte minutos, encontrou o consultório da Dra. Carla Zeglio.

-Até que não foi difícil...

Entrou, timidamente. Um ambiente requintado, bem iluminado. Na sala de espera, havia apenas duas pessoas: a recepcionista e uma mulher loira, aparentemente jovem, sentada de pernas cruzadas, lendo uma revista Marie Claire enquanto esperava ser atendida.

Foi até a recepcionista.

-Bom dia.

-Bom dia, senhor. No que posso ajudá-lo?

-Eu me chamo Lohan, gostaria de falar pessoalmente com a Dra. Carla Zeglio.

-O senhor marcou consulta?

-Não, eu... Eu sou amigo da sobrinha dela, e preciso falar com ela sobre um assunto... Muito urgente, digamos assim. É coisa de dez minutos, no máximo.

A loira que aguardava ser chamada o olhou de esguelha, insatisfeita.

-Desculpe, senhor, mas ela não pode atender nenhuma pessoa sem ter marcado consulta anteriormente.

-Mas é urgente. Essa pasta, eu preciso entregar a ela e explicar o que tem dentro dela, apenas isso.

-Ai, cara, se toca, né! Hello, ô! Não está me vendo aqui, sentada, esperando ser atendida? Furar fila é o cúmulo do absurdo, não acha?

Lohan virou-se para a moça e disse:

-Desculpe, não quero furar fila, aliás, que fila enorme tem aqui! – Ironizou.

-Dispenso suas ironias, meu bem. Eu estou pagando por isso aqui, exijo respeito, exijo meus direitos! – Gritou, batendo o salto do tamanco no chão.

Lohan riu-se, admirado com tal reação.

-Senhor, por favor, se continuar causando problemas aqui dentro, serei obrigada a chamar a segurança. Peço que se retire. – Pediu a recepcionista.

-Mas eu não estou causando problema algum! Só preciso trocar duas palavras com a Dra. Carla, ela me conhece! Avise a ela pelo telefone, e comprove!

-Ain, isso aqui está perdendo a credibilidade! – Reclamou a loira, levantando-se – Se eu for ultrapassada por esse intruso loiro, nunca mais ponho meus tamancos Arezzo nesse recinto!

-Ok, eu espero. Eu espero todos serem atendidos. Todos os pacientes.

Lohan sentou-se, tranqüilamente.

-Dona Juliana, acalme-se, tudo está sob controle. Ninguém vai entrar antes da senhora.

Juliana ajeitou a franja loira e, olhando com altivez para Lohan, disse:

-Sendo assim... Recomponho-me.

E tornou a sentar.

“Essas mulheres frígidas... Enchem a paciência do sujeito”.

“Esses brochas idiotas, que fazem o maior teatro para não revelarem o que de fato os trazem até aqui...”.

Um dos pacientes saiu da sala da Dra. Carla. Finalmente, a vez da Juliana.

Lohan esperava, ansiosamente. Meia-hora depois...

-Adeuzito – Despediu-se Juliana, e, virando-se para Lohan, deu a língua para ele.

A recepcionista ligou para Carla.

-Dra. Carla, tem um rapaz chamado Lohan aqui no seu consultório, ele disse que precisa conversar com urgência com a senhora.

Carla logo se lembrou do telefonem do dia anterior. Hesitou e disse:

-Peça para ele entrar, por favor. Vou aproveitar esse tempinho vago.

Lohan estava lá, diante de Carla, com a pasta debaixo do braço.

-Sente-se, moço.

-Obrigado.

Feito isso, Lohan agradeceu a atenção da doutora.

-Quem é você, afinal?

-Eu sou Lohan, como já disse. Ontem eu menti, dizendo que conhecia a Bianca. Na verdade, eu preciso conhecê-la.

-Por que precisa conhecer a minha sobrinha?

-Por causa disso.

Ele retira da pasta o livro, e o coloca sobre a mesa da doutora. Ela o apanha, intrigada.

-Odes de Ricardo Reis? Fala sério, quem lê isso?

-Digamos que quem lê Fernando Pessoa. E não são poucos, acredite.

-Ok. E o que ela tem a ver com isso?

-Esse livro pertence a ela. Tem até uma dedicatória na primeira página dele, que tudo indica que tenha sido feita para ela.

-Nossa... – Murmurou Carla, enquanto o folheava – Como descobriu?

-Do sebo eu fui até o irmão dela, o Camillo Landoni. E ele me indicou você.

-Bem, eu... Eu posso entregar a ela.

-Eu prefiro que seja eu, se não se importa. Preciso confirmar com ela essa dedicatória.

-Você quer dizer que, se a dedicatória não foi escrita para ela, você não deixará o livro com ela?

-Exato.

-Existe louco pra tudo nesse mundo, vou te contar... Ok, você me convenceu. Vou te dar o telefone dela. Mas se eu descobrir que tem falcatrua por trás disso... Eu te mato, ouviu bem?

-É justo.



"Negue-me tudo a sorte, menos vê-la"

(Ricardo Reis)


Bia estava por cima, quando o seu celular tocou.

-Ai, ai, vai, isso, isso!

-Não para, não atende esse celular, não atende... Ah...

-Oh, yeah!

O celular era insistente.

-Ai, que saco!

Bia se joga ao lado do seu parceiro, estica o braço e apanha o celular sobre a escrivaninha.

-Não, não atende!! Puta merda, Bia!

O homem se levanta da cama, nervoso, e vai para o banheiro. Ainda ofegante e com a voz aborrecida, ela atende:

-Alô, quem é, hein?!

Lohan se espanta.

-Olá, quem fala é o Lohan, tudo bem?

-Pra você ter uma idéia, eu estava quase tendo um orgasmo múltiplo, mas você teve o prazer de me ligar justamente agora!

-Ops... Me desculpa, eu não sou adivinha.

-Aqui, quem é você, hein? Ta me perseguindo a mando de quem?

-Porque eu ia te perseguir, se nem te conheço? Você também não me conhece, mas eu tenho algo que pertence a você. Está na minha mão, agora.

-Sei, e como eu vou saber se é uma caixa de bombons ou uma bomba relógio?

-Só me encontrando para saber.

Bia fez um semblante enfastiado, não sabia ao certo o que dizer.

-Pra sua sorte, eu sou uma pessoa que ama correr riscos, cara. Topo qualquer desafio, inclusive marcar encontro com psicopatas.

Lohan dá uma gargalhada.

-Ligue para sua tia e confirme com ela. Ela que me deu seu número.

-Não vou ligar porra nenhuma, quero descobrir tudo com os meus próprios olhos.

-Gostei da atitude, moça...

-Aonde quer me encontrar?

-Prefiro que você escolha.

-Bar São Dom Dom, conhece? Te vejo lá em uma hora, estarei de preto. Enquanto isso, tu vai pra puta que o pariu, seu filho da mãe!

Bia desliga o celular, e o lança no chão, irada. Em seguida, dá um salto da cama e corre até o banheiro. O rapaz tomava banho.

-Amor, me perdoa, vai?

Ele abre a cortina do box e, olhando para Bia, diz:

-Perdoar é o cacete! Me deixou na mão, garota. Isso não se faz, não mesmo!

-Renner, não faz assim comigo, eu não tenho culpa!

-Deixava aquela merda tocar!

-Era um garoto chato aí, dizendo que tem uma coisa minha com ele, que precisa me ver... Ai, deixa eu tomar banho com você...

-Sai daqui, Bia! Sai! Eu me desloco lá do Rio pra cá, pra te encontrar, e acontece uma dessas. Sai fora!

Uma hora depois, Bar São Dom Dom.

-Você é Bianca?

Bianca, que estava sentada a uma das mesas do bar, em transe com seus pensamentos, lança um olhar surpreso para Lohan.

-O que foi, levou um susto? Fique tranqüila, não sou um psicopata como você disse. Sou estudante de enfermagem, se quer saber.

-Grande merda. Preferia que fosse um psicopata, seria mais excitante.

Lohan se senta, risonho.

-Não me diga que tem fantasia sexual por psicopatas?

Ela balança a cabeça, enfadonha.

-Sabe, eu não achei a rua que você me falou, como era mesmo, puta que pariu? Enfim, Bia... Eu vim parar aqui pelo maior dos acasos. Vim parar aqui pra te entregar isso.

Ele põe o livro sobre a mesa. Ela o olha com desdém, sem sequer tocá-lo.

-Estou esperando o que você tem pra me dar, cara.

-Acabei de colocar sobre a mesa.

-Haha, você ta de brincadeira comigo, isso é pegadinha, não?

-Não se lembra desse livro? Ele é seu, não é?

-Lohan... Você cortou o meu lance, cara, por causa de uma merda dessas que não vejo há séculos? Cara, isso aqui... – Ela segura o livro, incrédula - É da época da minha escola! Eu tinha dezessete anos quando fui obrigada a ler essa porcaria!

-Que bom que se lembrou.

-Foi meu irmão, não foi? Ele que mandou você vir me investigar com esse pretexto horrível de livro de segundo grau. Isso é r-i-d-í-c-u-l-o! Eu vou embora!

Ela se levanta, furiosa.

-Espera, espera, Bia. Por favor, eu juro pra você que não é isso. Sim, eu fui até a casa do seu irmão, mas sou que estou investigando por conta própria quem é o autor da dedicatória que está nesse livro. Essa dedicatória foi feita para você, não foi?

-Que dedicatória? Não sei do que você ta falando não. Nunca nenhum homem me deu livro, graças ao bom Deus. Quanto mais dedicatória. – Ela ri – O máximo que já recebi de cantadas escritas aconteceu em bares como esse. Homens mandando recadinhos picantes em guardanapos, tipo, “quero te comer hoje”, ou “você é deliciosa, quero você”.

Inconformado, Lohan pega o livro e lê em voz alta a dedicatória.

-Não sei o que é isso. Nem sei como tive saco de ler esse livro, na época. Lembro que foi uma professora que arranjou pra mim. Foi emprestado, pra falar a verdade... Mas eu saí da escola, fui expulsa de casa, e esqueci de devolver... Satisfeito?

-Muita coincidência... Então se trata de outra Bia... – Refletiu Lohan.

-Olha, pelo o que eu to vendo, isso foi escrito há séculos. Tem certeza que pretende descobrir quem escreveu, e pra quem?

-Putz, eu entrei nessa... Eu entrei nessa, e agora tenho que ir até o fim. É loucura, eu sei. Mas é o que eu devo fazer. Ninguém teve essa iniciativa, o livro deve passado nas mãos de várias pessoas e nunca ninguém cogitou fazer isso...

-Você é retardado, isso sim. Mas o que você está fazendo é bem bacana, sabia? Corrigir o destino, acertar os ponteiros do relógio. Torço pra que você consiga encontrar.

-Obrigado, Bia. Olha, mil desculpas por todo o constrangimento...

-Eu que te devo desculpas. Não sou muito disso, confesso, sou orgulhosa. Mas peguei pesado com você.

-É o seu jeito, é a sua personalidade. Eu entendo.

-Você teve com o safado do meu irmão, é?

-Tive sim. Ele está muito mal. Precisa de ajuda. Enchendo a cara de uísque, a casa está um caos, e com aspecto depressivo. Eu sei o que ele fez com você, mas entenda: ele teve os motivos dele, Bia. Cá pra nós... É complicado o que aconteceu, não acha?

-É, eu vacilei mesmo. Mas ele foi muito estúpido comigo...

-Perdoe ele. É seu irmão. Procure por ele, conversem. Isso fará bem para ele e para você.

-É, vou pensar.

-Quer beber uma cerveja?

-Só se for agora.

Duas horas depois, Lohan saía da casa de Bia de banho tomado, com a pasta debaixo do braço.

(Em breve, o segundo post com o final dessa história e a grande revelação: meu amigo (a) secreto (a)!)

15 comentários:

Thaty Louise disse...

Fala, Lohan!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Thaty Louise disse...

Fala, fala e fala!!!!!!!!!!!

Lohan Lage Pignone disse...

Wait... Wait... rs

Rayanna Ornelas disse...

Ele adooora um suspense...

Bianca Lucchesi disse...

PELAMOR!
Conta o final logo.
Ri demais.

Andréa Amaral disse...

Só Jesus na causa....ele também faz parte do Autores?
Se não falar nas próximas 500 linhas vou apelar pra mãe Diná.

Ana Beatriz Manier disse...

Conheço uma história parecida com essa... Dá para você parar com essa tortura psicológica?

Camila Furtado disse...

aiiii, tô em cólicas aqui, conta tuuuuudo logo!

Lohan Lage Pignone disse...

Haha, olha que a coisa ta ficando quente...

Ana Beatriz Manier disse...

Estou aguardando o desfecho, meu caro. Ansiosamente.
Bia

Camillo Landoni disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Camillo Landoni disse...

Adorei o Camillo meio Logan antes dos X-Men! hahaha

Diferente do personagem baseado na minha pobre imagem, eu tô na tua cola, cara! Quero saber dessa dedicatória, aonde ela vai parar!

Abraços!!!

Ana Beatriz Manier disse...

Humm... será que a verdadeira Bia vai ser encontrada? Depende da insistência do Lohan. Pelo pouco que conheço dele, acho que vai...
Posta logo o final!!!!!!!!!!!!

Andréa Amaral disse...

Mais um dia................suspiro...................................................................................vai demorar muito? Tenho que ir ao banheiro.......Carrasco
torturador
sádico.

Sidarta disse...

Hehehehe

Lohan, você sabe como ninguém criar um suspense.

Também estou aguardando o desfecho desta história.

Abraço!