domingo, 20 de junho de 2010

Elos

Primeira postagem aqui. Vamos lá.

Trabalhava em uma empresa canadense e estava particularmente atribulada naquele mês. Além das funções que desempenhava no departamento de marketing, substituía também a secretária da diretoria, que saíra de férias.

O diretor, hoje de cabeleira grisalha e mente zen, não tinha tempo nem disposição para “bom-dias” ou “boa-tardes”, que dirá para responder perguntas de uma secretária-substituta.

Assim sendo, dei o melhor de mim durante aquele período, busquei o máximo da eficiência e fui resolvendo tudo o que estava ao meu alcance.

Invariavelmente, após a hora do almoço, chegava a correspondência do dia. O boy da empresa despejava amarrados de envelopes e pacotes de sedex na minha mesa e lá ficava eu fazendo a distribuição para os outros departamentos.

Um dia, num desses amarrados, chegou um envelope que me chamou a atenção. Não estava endereçado à empresa, nem a nenhum funcionário de lá. Era um envelope branco, air-mail, vindo do Canadá e endereçado a “Gertrude”, residente em Copacabana, Rio de Janeiro. O endereço estava incorreto, a carta fora devolvida e, em vez de voltar ao remetente, fora para a empresa, em Nova Friburgo e, por força das circunstâncias, para a minha mão. Até aí nada de mais. Um endereço errado, devolvido para o remetente errado. Um remetente canadense, para uma empresa canadense. No entanto, o que me fez parar e ficar olhando para aquele envelope, foi a quantidade de pedidos escritos em caneta hidrocor vermelha, em vários idiomas, para que aquela carta chegasse ao seu destino: “Por favor, entreguem esta carta”.

Fiquei balançando o envelope. Gertrude, apenas. E aí, o que faço? Quero ajudar essa pessoa que parece tão angustiada, mas como? Abro? Tento descobrir quem é Gertrude? De início, fiquei cheia de escrúpulos. Não queria invadir a privacidade de ninguém. Por outro lado, se não o fizesse, a carta se perderia para sempre e sabe-se lá o que mais junto com ela.

Abri. E fiquei emocionada. “My dearest Gertrude...”

Um senhor inglês, Irving, escrevia para a moça que conhecera durante a Segunda Guerra Mundial. Ele fora combatente em solo britânico e ela -- Gertrude, pensei, que estranho... um nome alemão -- uma mulher que ele conhecera nessa época. A carta não fazia menção à forma como eles haviam se encontrado ou quem era ela. Falava apenas de saudade, de desencontros, de rumos diferentes, de separação. E do desejo de reencontrá-la. Eles haviam se conhecido e se apaixonado durante a guerra. Eram jovens e viveram um amor intenso, conturbado, entremeado por granadas, bombardeios e poucas diversões. Decorridos alguns meses, acabaram se separando. Ele foi transferido para lutar em outra frente e perderam o contato. Com o término da guerra, Irving mudou-se para o Canadá. Constituiu família, trabalhou, viveu. Mas nunca deixou de procurar por ela. Décadas mais tarde, com o auxilio de amigos ingleses que fizeram uma busca junto ao que entendi ser um “Ministério Militar”, chegou a esperada notícia de Gertrude: morava no Brasil, no Rio de Janeiro, em Copacabana.

E lá estava eu com aquela carta na mão. Nem sequer cogitei consultar o diretor monossilábico, senti que cabia a mim encaminhá-la ao seu destino, como se eu tivesse sido escolhida para isso. Pensei rápido, uma enxurrada de pensamentos, como a que normalmente se segue a um desejo de solução.

Só uma pessoa poderia me ajudar. Um tal sr. Hans, que era uma espécie de “cônsul” da Alemanha em Nova Friburgo e que conhecia muitas famílias estrangeiras na região.

Já nos conhecíamos. Fui ao escritório dele. Mostrei a carta. Ele se interessou e, assim como eu, comoveu-se. Anotou nome e endereço. Disse que me daria retorno. E deu.

Dias depois, ele me telefonou informando o nome completo de Gertrude e seu novo endereço no Rio. Não fora difícil, disse-me, tinha muitos conhecidos na capital do estado.

Não perdi tempo. Escrevi algumas linhas para o senhor britânico, explicando tudo o que acontecera, pedindo desculpas por ter aberto a carta e dizendo que, finalmente, ela seria entregue em seu destino. Fiz o mesmo com Gertrude.

Dias depois, recebi um telefonema dela. Uma voz de senhora idosa, porém forte, vibrante. Agradeceu imensamente, disse que reencontrara um amigo querido.

Quanto a Irving, após uma carta comovente, fiquei uns dois anos recebendo postais magníficos de Quebec, desde flores esplêndidas a lagos congelados.


E assim termina esta história. Não sou uma pessoa mística, na verdade, acredito em poucas coisas. Sinto, porém, que somos todos elos de uma mesma corrente. E quanto mais elos formamos, mais forte e extensa ela fica. Pelo tempo que passou, Gertrude e Irving não estão mais vivos, mas foram elos soltos que, através dos meus, voltaram a se unir. Elos assim fazem a corrente valer a pena.

12 comentários:

Lohan Lage Pignone disse...

Belíssima crônica, sobretudo pela mensagem final. Ana, seja muito bem vinda! Pelo visto, o Autores S/A foi fortalecido por um elo e tanto!

Que a nossa corrente literária seja duradoura e prazerosa.

Beijos, Lohan.

Ana Beatriz Manier disse...

Obrigada, Lohan. Que bom ser bem-vinda.

Andréa Amaral disse...

Poxa, Ana...você conseguiu fazer minha mente viajar em flashes de um extremo ao outro com sua narrativa tão concisa, eficiente (como o cargo que ocupou); sem se ater ao supérfluo ou ao super-meloso, para nos contar uma linda história de amor.
Imediatamente me conectei com cenas de filmes onde amores reais têm seus laços quebrados pela crueldade das guerras, pela tragicidade ou pelas convenções: "As pontes de Madison", "Titanic", "Romeu e Julieta"; "Tristão e Isolda"; "A escolha de Sofia"; "O leitor"... pensei no romance de Marguerite Duras, "O amante", qdo após vários anos, ele consegue entrar em contato com ela por carta, para dizer-lhe que nunca deixou de amá-la. Pensei nas surpresas que tornam a vida maravilhosa, quando nos deparamos com certas pessoas que são anjos trazidos para nos ajudar ou quando somos nós esses elos, cuja missão é unificar, recuperar, consolar. Maravilhoso. Substancial, sem ser piegas. Bem vinda e parabéns. Amei de verdade.

Anônimo disse...

Oi Amiga querida,
que coisa romântica... e que sintonia incrível ocorreu entre vocês.
(você sabe que eu acredito em tudoooooooooooooooooooo!!!!!)
O texto é objetivo, gostoso de ler e deixa a pessoa curiosa para
saber o desfecho. Muito legal mesmo, amiga.
CONGRATS!!!! Você já é escritora há muito tempo!!! mande outros para eu ler.
beijos,
Suzane

Ana Beatriz Manier disse...

Andrea!
Que bom que gostou! Obrigada pelo comentário positivo. Tem razão, não sou mesmo melosa,às vezes (embora não seja o caso aqui), até exagero por ser muito "straight to the point". Adoro essa história e fico feliz por ter sido parte integrante dela. Mais feliz ainda por tê-la partilhado com vocês.

Beijos!

Ana Beatriz Manier disse...

Suzane, eu sei que vc acredita em tudooooo e juro que não sei como podemos nos dar tão bem... Obrigada pelas suas palavras.
Beijos!
Anita

Anônimo disse...

Bia só agora consegui ler a crônica! Estou emocionada com essa história!!!
Você nunca comentou comigo a respeito.....minha amiga, se fosse você, abandonaria a profissão de tradutora e seria a própria autora de histórias reais e surreais!!! Você escreve muito bem, sabe usar muito bem as palavras e é super envolvente na forma de escrever.

Um beijo.

Carla

Camila Furtado disse...

Ana, que linda história! Essa questão dos elos, como vc nomeou é realmente bastante profunda, pois ao mesmo tempo em que vc os uniu novamente, vc os libertou de uma saudade que durava anos e certamente tinha o peso de uma corrente pesada que eles arrastavam ao longo da vida. Tenho certeza de que eles puderam viver bem mais leves graças a sua bondade e empenho. Parabéns!!!

Ana Beatriz Manier disse...

Oi, Camila, obrigada! Acho que foi mesmo uma intervenção positiva.
beijos!

Anônimo disse...

Você leva jeito pra coisa. Continue, continue, continue...

Ana Beatriz Manier disse...

Continuarei!

Rosângela de Paiva disse...

Gostei bastante do seu texto e me fez lembrar a um filme que assiti: Cartas para Julieta.
Achei muito interessante o desfecho que você deu a ele, com a observação sobre "somos todos elos de uma mesma corrente...
Parabéns!!! Rosângela.